Mudanças neurobiológicas ajudam a explicar sintomas como tristeza intensa, fadiga, insônia e dificuldade de concentração durante o processo de perda
Há um momento em que a pessoa enlutada percebe que não consegue lembrar o que comeu no dia anterior, que acorda às três da manhã sem conseguir voltar a dormir, que chora no meio de uma frase sem saber bem por quê. Não é fraqueza. É o cérebro tentando se reorganizar diante de uma perda que ainda não consegue processar.
A morte de alguém próximo desencadeia um processo que vai muito além da dor emocional: o luto provoca mudanças reais no funcionamento do cérebro, afetando memória, sono, apetite e até a capacidade de manter a rotina. Embora seja uma resposta natural e esperada, o impacto pode ser significativo — e, em alguns casos, exige atenção clínica.
De acordo com o psiquiatra dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, Marcelo Heyde, o luto está associado a alterações em áreas cerebrais ligadas à memória e às emoções, como a amígdala e o hipocampo, além de desregulação no lobo frontal. “Há também impacto nos neurotransmissores responsáveis pelo humor e pela energia, o que ajuda a explicar os sentimentos de tristeza profunda, perda de prazer e queda de energia”, afirma. O aumento do cortisol, hormônio do estresse, completa o quadro, prejudicando principalmente o sono e o apetite.
Para o psicólogo dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, Pedro Rujano, o processo envolve ainda uma quebra na forma como o cérebro organiza a realidade. “A perda rompe um padrão de previsibilidade. O cérebro, que estava organizado em torno daquele vínculo, precisa se reorganizar”, explica. É por isso que o luto raramente se manifesta em linha reta — ele oscila, alternando momentos de maior estabilidade com períodos de dor mais intensa.
Entre as reações esperadas estão tristeza profunda, saudade, sentimento de culpa, raiva — inclusive direcionada à pessoa que morreu —, sensação de irrealidade, alterações no sono, apetite e na cognição e redução temporária da capacidade de funcionar no dia a dia.
Quando o luto exige acompanhamento profissional
Não existe prazo certo para elaborar uma perda. Clinicamente, espera-se uma adaptação gradual ao longo de seis a doze meses. Ainda assim, o principal critério de atenção não é o tempo, mas o impacto na funcionalidade. “Mesmo com tristeza, a pessoa tende a conseguir manter minimamente suas atividades. Quando há prejuízo importante, isso acende um sinal de alerta”, destaca Heyde.
Os especialistas chamam atenção para situações em que o luto pode evoluir para quadros mais graves, como depressão ou transtornos relacionados ao trauma. Entre os sinais estão sofrimento intenso e persistente, isolamento social, incapacidade de retomar a rotina, uso abusivo de substâncias e pensamentos recorrentes sobre a morte. Nesses casos, a orientação é buscar avaliação profissional.
Como atravessar o luto
Manter algum nível de atividade física ou social, respeitar o próprio ritmo e contar com uma rede de apoio são medidas que ajudam. “O luto é normal e, na maior parte das vezes, não precisa de intervenção profissional, mas o suporte social faz diferença na forma como a pessoa atravessa esse período”, afirma Heyde.
Rujano reforça que o objetivo não é eliminar a dor, mas aprender a carregá-la. Rituais de despedida e o compartilhamento da experiência com pessoas de confiança podem ajudar a tornar a perda mais real e, com o tempo, mais suportável.
Para quem está do lado de fora, acolher sem invadir é a orientação mais importante. Demonstrar presença, evitar excesso de conselhos e respeitar o tempo do outro tendem a ser mais eficazes do que qualquer tentativa de acelerar o processo.

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