Em reunião na cidade de São
Luís nesta quinta-feira (14), os nove Estado do Nordeste elaboraram e
divulgaram uma carta com posicionamentos sobre temas importantes para a sociedade
brasileira. O documento foi redigido durante o Fórum dos Governadores do Nordeste,
no Palácio dos Leões, sede do Governo do Maranhão.
O governador Flávio Dino
recebeu sete governadores e um vice-governador do Nordeste. Todos os nove
Estados, portanto, estavam representados.
Estiveram presentes no Fórum os governadores Flávio Dino (Maranhão), Rui Costa
(Bahia), Paulo Câmara (Pernambuco), Camilo Santana (Ceará), João Azevedo
(Paraíba), Wellington Dias (Piauí), Fátima Bezerra (Rio Grande do Norte),
Belivaldo Chagas (Sergipe) e o vice-governador José Luciano Barbosa da Silva
(Alagoas).
A carta tem cinco pontos principais. Um deles é sobre a proposta de
desvinculação de receitas do Orçamento, tramitando na esfera federal. Essa
proposta, caso seja aprovada, permitiria a redução de gastos que hoje são
obrigatórios em educação e saúde, por exemplo.
“Achamos que resultaria num desastre social para o país. Iria haver diminuição
de investimentos em saúde e educação, sobrecarregando ainda mais Estados e
municípios, que são obrigados a manter suas redes de atendimento, as escolas,
os hospitais, as UPAs”, afirmou Flávio Dino, que falou em nome dos demais
governadores.
“A desvinculação não produziria nenhum efeito a não ser a eventual diminuição
de repasses para Estados e municípios”, acrescentou. Os governadores também
voltaram a defender que a reforma previdenciária é um debate necessário, mas é
preciso fazer mudanças para não prejudicar os mais pobres.
Entre os pontos do texto da reforma em que é necessário fazer mudanças, de
acordo com os governadores, estão a retirada das regras previdenciárias da
Constituição; a adoção do regime de capitalização; e medidas restritivas de
direitos dos mais pobres, incluindo os trabalhadores rurais e a redução do
valor do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Desenvolvimento
De acordo com a carta, é preciso preservar a existência do Banco do Nordeste,
da Sudene e da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco).
O governador Flávio Dino disse que esses mecanismos regionais de
desenvolvimento “são fundamentais não apenas para o Nordeste, mas para o Brasil,
uma vez que superar desigualdades regionais não é um direito dos nordestinos, é
um dever do Brasil inscrito na Constituição. Por isso somos contrários a
qualquer proposta de privatização ou extinção desses importantes organismos da
vida política do Nordeste”.
Segundo ele, o Fórum de Governadores defende o amplo diálogo com todas as
esferas de poder: “Nossos Estados têm no Congresso Nacional 27 senadores e 153
deputados federais. O primeiro trabalho é que haja uma sensibilização das
bancadas federais em relação a esses pontos”.
“A agenda que apresentamos é de amplo diálogo, com outros governadores de
outras regiões também. São pontos de vista que interessam a Nação e outros
Estados. E diálogo também com as bancadas federais no Congresso, de modo
suprapartidário, e com o governo federal”, acrescentou.
Os governadores defenderam, ainda, o Estatuto do Desarmamento e se mostraram
contrários a regras que ampliem a circulação de armas, mediante posse e
porte.
Consórcio
No Fórum, também foi assinado o protocolo de criação do Consórcio Nordeste. Com
o consórcio, os Estados nordestinos terão, por exemplo, mais poder de negociar
preços, já que serão feitas compras conjuntas, com um volume muito maior.
Também poderão ser feitas cooperações policiais muito mais intensas que as de
hoje.
Agora, cada Assembleia Legislativa estadual terá de aprovar a criação do Fórum.
A partir daí, ele passa a funcionar.
Veja a íntegra da Carta dos
Governadores do Nordeste:
CARTA DOS GOVERNADORES DO
NORDESTE
São Luís (MA), 14 de março de
2019.
Os Governadores dos Estados do Nordeste, reunidos nesta data, em São Luis (MA),
manifestam-se à sociedade brasileira, nos seguintes termos:
1. Assinamos hoje o Protocolo que resultará na criação do Consórcio Nordeste,
importante instrumento político e jurídico para o fortalecimento da nossa
região e para melhorar a prestação de serviços públicos aos cidadãos e cidadãs.
Acreditamos que a cooperação assim intensificada resultará em diversas
conquistas, por exemplo parcerias na aquisição de produtos e na execução de
ações conjuntas em áreas como Segurança Pública.
2. No mesmo sentido de proteção e promoção dos direitos do povo do Nordeste,
sublinhamos que vamos dialogar com os 153 deputados federais e 27 senadores dos
nossos estados para que não haja qualquer retrocesso quanto a mecanismos
essenciais para o desenvolvimento regional, notadamente o Banco do Nordeste, a
CHESF e a Sudene.
3. Sobre propostas atualmente em debate no país:
a) Registramos que não concordamos com a ideia de desvinculações de receitas
para fazer face às despesas obrigatórias com saúde, educação e fundos
constitucionais, que resultariam em redução de importantes políticas públicas.
Em vez disso, desejamos discutir realmente o Pacto Federativo, inclusive no
tocante à repartição constitucional de receitas e competências.
b) Quanto à Reforma Previdenciária, consideramos que se trata de um debate
necessário para o Brasil, contudo posicionamo-nos em defesa dos mais pobres,
tais como beneficiários da Lei Orgânica da Assistência Social, aposentados
rurais e por invalidez, mulheres, entre outros, pois o peso de déficits não
pode cair sobre os que mais precisam da proteção previdenciária. Também
manifestamos nossa rejeição à proposta de desconstitucionalizar a Previdência Social,
retirando da Constituição garantias fundamentais aos cidadãos. Do mesmo modo,
consideramos ser imprescindível retirar da proposta a previsão do chamado
regime de capitalização, pois isso pode inclusive piorar as contas do sistema
vigente, além de ser socialmente injusto com os que têm menor capacidade
contributiva para fundos privados. Em lugar de medidas contra os mais frágeis,
consideramos ser fundamental que setores como o capital financeiro sejam
chamados a contribuir de modo mais justo com o equilíbrio da Previdência brasileira.
4. Por fim, defendemos o atual Estatuto do Desarmamento e somos contrários a
regras que ampliem a circulação de armas, mediante posse e porte de armas.
Tragédias como o assassinato da vereadora Marielle e a de Suzano, no Estado de
São Paulo, mostram que armas servem para matar e aumentar violência na
sociedade. Somos solidários à dor das famílias, destas e de outras tragédias
com armas, e é em respeito à memória das vítimas que assim nos
manifestamos.
5. Ratificamos nosso empenho conjunto em favor de uma nação justa e soberana,
renovando mais uma vez nossa disposição para o diálogo amplo, conducente a dias
melhores para o Brasil.